terça-feira, 17 de março de 2015

Enfim...

Me distraio e vem aquela sensação: o que estou esquecendo? tem algo atrasado pra fazer? De onde vem essa calmaria?  
Respiro fundo. Ela finalmente chegou. Aquela que esperei chegar por longos quatro anos. 
Apesar do meu ritmo ainda não ter acostumado,  já nem consigo sentir o sufoco daqueles dias de faculdade,  filho pequeno e casa para cuidar. Passou. Eu sabia que ia passar. 
Agora exercito todos meus planos - tenho a manhã para meu filho; podemos fazer uma brincadeira,  um bolo, um desenho ou até mesmo só conversar, não importa. Me basta assistir ele crescer. Ainda sobra tempo para cuidar da casa e fazer uma comidinha como gostamos. Preparo a lancheira e o suco natural, praticamente o auge da qualidade de vida. Levamos ele na escola,  acompanhados da nossa cadela, Guria (vejam só, até cachorro eu tenho) e a partir daí organizo minha tarde. Marco os horários dos meus pacientes e faço meu trabalho,  satisfazendo a minha vontade profissional. Tenho meu retorno financeiro e minha força útil. 
Ainda depois disso, dá tempo para ir na academia, ou até mesmo no salão,  o que antes só se encaixava em algum horário alternativo da rotina adoidada. 
Chego em casa e são 18:20. A água do mate vai aquecendo enquanto o noivo chega. Dá tempo de trocar aquelas palavras sobre o dia que passou e aproveitar o que ainda resta.  Logo os barulhos da rua vão cessando, as luzes apagando, algumas crianças ainda brincam na rua até o silêncio tomar conta. São 22:00 e todos dormem - Santiago,  Guria, vizinhança. O dia por aqui começa cedo, então melhor já ir dormir.  
Temos horários flexíveis,  estamos perto de casa, o carro é dispensado muitas vezes e mesmo quando não é, o trânsito não nos incomoda. Andamos tranquilos,  cumprimentamos mais do que caminhamos e logo já estamos de volta. 
Saímos pra jantar e não existe fila, estacionamento ou reserva.  Quando dá escapamos para o campo, ficando ainda mais perto de nós mesmos e de quem gostamos. 
Os filhos crescem livres, longe da redoma de vidro dos shoppings, televisão e parques cercados. A relação entre pais e filhos muda.  Há muito mais conversas com olho no olho e o nosso medo de errar é subtraído,  pois estamos traçando o caminho pelo qual viemos.
Vez que outra ainda ronda o sentimento de que posso me atrasar,  aquele aperto no peito por estar horas e horas longe do Santiago e a agonia de não conseguir dar conta de tudo.  Quando passa, agradeço tanto que meus olhos enchem de lágrimas: o furacão passou.  
E quando me perguntam se não sinto falta da movimentação da cidade grande,  dos restaurantes e outras programações... até sinto, mas não há o que pague essa rotina e a gratidão por vivê-la.