Quando falamos em pureza,
inocência, rapidamente nos remetemos a infância, já que quando nascemos não
sabemos nada desse mundo e a cada dia que passa a vida nos ensina um pouquinho
das regras, até que sejamos adultos e ‘sabidos’ o suficiente para recomeçar e
enxergar através dos olhos das crianças, relembrando o valor de tais
sentimentos.
Digo isso porque só convivendo e
vivendo com uma criança é possível perceber que o amor não tem instruções, nem
bula, nem modo de usar. O amor a gente constrói em gestos, palavras, carinho,
cumplicidade e respeito. Tudo isso com espontaneidade, com o coração. O amor
acontece e se é forçado não vinga.
Onde quero chegar é que, por
estar em férias e em tempo quase que integral com o Santiago, muitas vezes fico
surpresa com certos gestos vindos dele. Gestos que refletem a relação de
confiança que construímos até aqui – o amor que construímos e que se traduz em
beijos inesperados no meio da brincadeira, num “mamãeee” ou “papaiii” ao menor
sumiço nosso, num colo em busca de conforto, e tantas outras coisas que saem
tão naturalmente que chega a nos surpreender. É como se fosse uma representação
da inocência presente nessas pessoinhas.
Isso nos surpreende porque nós
adultos tivemos nossa pureza mascarada pelas rodas da vida. Aprendemos que nada
vem de graça, nem mesmo um sorriso. Desenvolvemos com extrema precisão o
egoísmo e o distribuímos por todo lado. Nessas horas, deveríamos parar um pouco
de ser gente grande e nos espelharmos naquela gente pequena que possui alma
branda.
Na verdade, isso é apenas um
detalhe do quanto aprendemos junto com nossos filhos. Desde a notícia da
gestação até agora somos outras pessoas e, como sempre digo, pessoas melhores;
pois desde aí fomos capazes de abandonar a posição de ‘sabidos’ para recomeçar
e aprender tudo de novo junto com o Santiago, com os olhos dele.
Esse carinho espontâneo me deixa
tão feliz que me sinto vencedora na difícil tarefa de criar um filho, o que
deixa todo resto sem valor. Aquele intercâmbio da faculdade, aquela viagem,
aquela vida sem preocupações além de mim passam a ser tão dispensáveis e
passageiros que nem deixam saudade nem vontade. Sabe por quê? Porque ninguém tem o
que eu tenho – o ‘mamaine’ ao acordar, o aconchego pra dormir, o companheiro de
descobertas, um coração puro e inocente do qual nós somos os guias, os pais. Um
filho único como o Santiago.