quinta-feira, 17 de julho de 2014

Dizem que não há nada que você não se acostume

     É o que dizem. 
     Primeiro de tudo a gente chega no mundo e se acostuma com o ritmo daqui. Você não opina se o fluxo é certo ou errado, você apenas segue. 
     Você aprende a ser bebê, logo já é promovido a criança, mas se acostuma com as novas responsabilidades. Em seguida acontece uma revolução (hormonal) e você é quase um adulto, mas, ao mesmo tempo, está bem longe de ser adulto - você se acostuma a ser adolescente, a estudar pras provas do colégio, a acordar mais cedo e lidar com confrontos emocionais. Aí chega uma hora que o juízo bate na porta e chega de vez. Essa idade varia muito entre os indivíduos. 
     Cada uma dessas fases tem suas dificuldades, novidades e, principalmente, seus medos. 
     Comigo, a vida adulta não bateu à porta, ela entrou como um caminhão desgovernado porta adentro (sorte que consegui recebê-la bem). Aí, você, mulher, se acostuma com a idéia de ser mãe, de que a barriga vai crescer e o coração também. Você se acostuma a ficar o dia em casa com o bebê, escabelada, de pijama, esperando o dia passar ao lado do seu pequeninho. Logo (ou nem tanto), você amadurece a idéia de voltar ao trabalho e terceirizar seus cuidados, e você se acostuma assim. Acostuma com a distância, com a culpa, com os malabarismos.  Acostuma que eles crescem como se a gente colocasse fermento no arroz com feijão e acostuma com as novas respostas deles.
     O fato é que assim, a gente se acostuma e a vida passa. É incrível a plasticidade do ser humano. Acostume-se com a paz interior, com a auto-estima, com a felicidade e o amor que o rodeiam; Mas não deixe que a culpa e o medo caiam na rotina. Mude sempre que necessário, volte, faça de novo, converse, não deixe para depois. Lembre-se sempre que nosso prazo de validade é indeterminado.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Socorro!

     Sabe aquele dia em que você pára e pensa: tá tudo errado. Pois então. Hoje.
     Poucas coisas me deixam mais triste do que sair e voltar pra casa com o Santiago dormindo. Saímos as 7:30 e voltamos as 18:30. Faz com que eu me sinta um lixo. L-I-X-O, bem assim. É nessas horas que você pensa que mãe é quem cria, mas você passou todo dia longe, e quem cuidou foram as profes.  Diga-me mãezinha, que moral tens pra ensinar e cobrar alguma coisa quando não és tu quem educa?
     Não agüento mais. Bandeira branca.
     Estamos quase lá, mas parece que não passa nunca. As obrigações gritam no seu ouvido, no mesmo ritmo que o seu filho chora. Perai, porque ele chora mesmo? Simples. Atenção. Ele clama pela sua atenção, enquanto você tem as duzentas e quarenta e oito outras coisas pra fazer. Aí você fica triste, conversa, ele chora, você perde a paciência, ele chora, você chora. Choramos. Tem alguns momentos em que isso é tudo que você é capaz de fazer, porque está esgotada. 
     Tentamos ser melhor em tudo, como mãe, como mulher, como profissional. E é impossível. Seu trabalho não sai como você gostaria, seu filho reage de um jeito que você desconhece, mal dá tempo pra academia, pro supermercado, marido, casa. E se você encomendar uma pizza depois de um dia desses, será acusada de gorda preguiçosa. Lembre-se, mãezinha, você deve ser uma mãe presente, uma profissional bem sucedida, uma esposa maravilhosa, uma dona de casa impecável, além de magra, sarada e estar sempre bem vestida, maquiada e com um sorriso no rosto, enquanto seu filho se comporta como um cavalheiro.
     @&!#%}{^*€ !!!!!
     Quando alguém souber, por favor me ensine.
     Precisava escrever porque já chorei, já falei e preciso me livrar desse sentimento de fracasso.
     (Respirando fundo.)
     Termina logo esse martírio do décimo semestre, agüentei por três anos, mas agora eu me rendo. Não posso mais abrir mão de tanto tempo longe de quem precisa de mim, afinal não foi um ou dois dias que precisei sair cedo e chegar tarde. Deu. 
     Desculpem o desabafo, mas está acumulado há muito tempo!
     
     

sábado, 15 de março de 2014

Saudades

     Já faz um tempo que cheguei a conclusão de que sentir saudades é a maior sina de nossas vidas. Porém, até então, não tinha refletido mais sobre isso...
     Eu, por exemplo, sinto saudades de morar no interior, no conforto de casa, morando com os pais. Aquele aconchego que sentimos ao retornar do lugar de onde viemos, onde crescemos. Sinto saudade de morar perto da escola e dividir o caminho com alguns amigos, caminhando sem tanta pressa. Saudades de estar sempre protegida, onde os monstros não saem debaixo da cama, e qualquer coisa, tinha a cama dos pais pra proteger dos pesadelos. Hoje, eu desempenho esse papel de proteção, é a roda da vida.
      Sinto saudades da vida pra fora, do entardecer, de obrigar a mãe a interromper a brincadeira e levar pro banho, pois a noite já estava se aproximando. Fecho os olhos e sinto o cheiro do carreteiro com ovo pra janta, e é como se estivesse lá... Não tinha nada em especial, mas era no fogão a lenha, naquela cozinha, o sino batendo indicando para os peões que estava na mesa. De acordar cedo no outro dia com meu pai dizendo que o cavalo já está esperando para encilhar. Lá, tudo ainda é assim; eu que não  posso mais estar todo dia perto.
      Saudades do decisivo terceiro ano, vestibular, expectativas. De quando respirei fundo, saí de casa e voei com minhas próprias asas. Aprendi a cozinhar, andar de ônibus, aprendi ruas novas, caminhos diferentes. Caminhos. Que me distanciaram da minha casa, meus pais, minhas melhoras amigas, e me ensinaram que cada estrada é um mundo novo. Ganhei independência, ganhei amigos novos, ganhei maturidade. Sinto saudades dos anos que morei com meu irmão, que foi como meus pais nessa época de transição... Do quanto aprendi com ele e o quanto aproveitamos esse tempo que moramos juntos. E foi por aí, nessa época, que também ganhei um amor, um companheiro que desde a primeira vez que saímos juntos, nunca mais nos deixamos e queríamos estar cada vez mais perto.
      Sinto saudades de quando éramos apenas dois jovens cujo único compromisso era a faculdade. Pouco tempo depois a vida nos guardava uma surpresa. Tenho saudades da gestação, da espera pelo que eu nem sabia se seria capaz de conduzir. Aquilo que falei antes sobre a troca de papéis, sobre ser fortaleza, proteção - eu tinha apenas 18 anos e aprendia a cuidar de mim. Sinto muita saudades, muita vontade de voltar no tempo no dia que o Santiago nasceu, para me encantar novamente com o rosto dele. Saudades dos momentos que passamos até chegar aqui. E tenho certeza que também sentirei saudades dessa nossa casa, da vida que levamos hoje.
      Entretanto, a conclusão que cheguei hoje não é nenhum desses fatos que mencionei antes. Essas são saudades que carrego sempre comigo, meus pais, meus irmãos, meus amigos. O que me dei por conta é que semeamos a saudade a cada momento bom que vivemos. Sentir saudades não significa que as coisas não vão bem no presente, e sim, que o passado foi intenso a ponto de nos deixar lembranças  indeléveis em nossa memória. Sentiremos saudades de nossos avós, de nossos pais, daqueles que nos rodeiam.. O nosso tempo é precioso, a vida corre e é impossível parar essa roda. Por isso, é nosso dever cultivar o presente, para que nossa vida seja cheia de saudades...

sábado, 8 de março de 2014

Mulher: o sexo macho

     Gostaria de saber quem, um dia, teve a petulância de dizer que a mulher é o sexo frágil. Assim, poderia ir atrás deste sujeito e convidá-lo a passar uma semana na pele de uma mulher.
      Não só pelo fato da mulher ter TPM e cólicas, nem por passar nove meses enjoada e nem pela dor do parto, isso é passado e nós, mulheres, já superamos. Queria ver qual homem assumiria as funções (e as realizaria com perfeição como exigimos de nós mesmas) de uma mulher de hoje em dia. A mulher não deixou de cuidar da casa, ter filhos e cuidar do marido, porém, acumulou uma tarefa que antes era só masculina: o trabalho. E junto com ele, os compromissos, os horários e as responsabilidades. Bom, vejam bem que disse que as mulheres não deixaram para trás suas incumbências "femininas". Então, calculem: o dia tem 24 horas, das quais elas trabalham/estudam, arrumam os filhos, levam e buscam da escola, pensam no jantar e passam no mercado, ajeitam a casa, curtem a família. Ok, quando o filho não adoece. Quando não acaba a gasolina e você não está atrasada. Quando não tem engarrafamento para chegar. Quando você não esquece de levar a caixa de sapato que a professora pediu. E não foi por mal, afinal tantas coisas suas você esquece por tanto tempo... Ou vocês acham que nessa correria toda é possível fazer as unhas toda semana?
     Se vira nos 30, mulher.
     Não interessa para aqueles que te vêem quantas horas você dormiu essa noite; você deve estar maquiada e sem olheiras as 6:15am. E melhor você achar uma hora pra malhar, antes que se olhe no espelho e queira fugir. E não se esqueça do horário pra conversar com a prof, com a nutricionista, hora pra brincar de super-herói e monstro, nem das roupas na máquina, nem da conta pra pagar e nem da depilação, viu? E quando acha que vai deitar e dormir: mãe, deita aqui comigo.
     Caro sujeito que nos denominou como sexo frágil, gostaria de ver seu desempenho como mulher. E isso não é privilégio apenas das mulheres de hoje, dizem que é intrínseco ao ser feminino a capacidade de desempenhar diferentes tarefas ao mesmo tempo - enquanto você dirige para o trabalho vai fazendo uma lista mental das coisas a fazer no dia (quem nunca?).
        Hoje a mulher não só dirige seu próprio carro, como faz baliza melhor que muito homem e se for preciso, troca o pneu também. Se foi o tempo que os homens precisavam ser chamados para trocar a lâmpada. A maioria das mulheres acorda mais cedo que os homens. Muitas são responsáveis pelas finanças da casa. A mulher tem o poder de decisão sobre a maior parte das questões. A mulher tem que ser empreendedora, focada no trabalho, profissional exemplar, sem deixar de ser materna, carinhosa, feminina. E, novamente, se vira mulher.
        O fato é que a gente se vira, como sempre se virou. No mínimo, merecíamos um dia só nosso como forma de agradecimento pelo pãozinho pra janta, pelas noites em claro com os filhos, pela casa limpinha, pelas roupas dobradas, pela família em paz. Inclusive, acho que deveríamos ser menos feministas e parar de querer abraçar o mundo com as mãos, exercitando a capacidade de delegar tarefas e dividir com nossos companheiros algumas coisas. Hoje, várias de nós vivem como super-mulheres, tentando cuidar de tudo ao mesmo tempo. 
       Então, nesse 8 de março vamos aproveitar para repensar um pouco no nosso dia a dia, reformular o que é possível e agradecer às mulheres que se preocupam conosco 24 horas por dia, 7 dias por semana. Mulheres, o sexo eficiente!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Aquarela da vida - 3 anos

     Sempre gostei daquela música chamada aquarela, não sei, talvez pelo fato de ela traduzir de forma simples a trajetória da nossa vida:

"E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo
Nem piedade 
Nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida 
E depois convida a rir ou chorar"

     E eu ri. E chorei também, mas um choro bom. Quando há três anos atrás acordei, fui para o hospital e voltei com uma parte de mim em minhas mãos. Pequeno, frágil, dependente e faminto. No início essa dependência nos assusta muito, nos deixa receosos de errar, de não saber lidar. Mas a natureza é mais sábia que o mais estudioso de nós e nos ensina a conduzir.
     Faz três anos que tenho alguém para cuidar, proteger, ensinar e amar. E isso é o que eu mais faço: amo. Amo mesmo brabo, mesmo teimoso.  Amo quando doente, quando distraído, quando longe. Amo com todo meu carinho e do melhor jeito que sei amar. 
     Então no dia de hoje, quando completa três anos da melhor companhia que podíamos ter, eu gostaria de ter uma máquina do tempo para reviver alguns momentos. 
     Primeiramente, no momento em que soube que teria um filho, tão assustada e cheia de dúvidas, eu gostaria de poder voltar e sanar um pouco das minhas preocupações. Se eu pudesse dizer que as coisas não seriam impossíveis como eu imaginava e que, naquele momento, eu tinha acabado de receber a melhor notícia da minha vida, teria sido mais fácil entender. Gostaria de ter permitido que meus olhos brilhassem desde o primeiro instante e não ficassem ofuscados com medo do fracasso. Hoje tenho todas as respostas pras perguntas que me fiz naquela época, e garanto a vocês, todas são maravilhosas e refletem o aprendizado que o Santiago nos proporcionou. 
     Depois, gostaria de reviver o momento em que ele veio ao mundo, e se possível colocar em câmera lenta aqueles segundos de imensidão onde ele deixou de fazer parte do meu corpo e tomar sua vida própria. A primeira inspiração, o primeiro choro e o mistério da vida se concretizando. Rever isso seria fantástico!
     Então, pouco a pouco, passear pelo caminho que traçamos até aqui: as primeiras noites tão mal dormidas, a amamentação, os primeiros sorrisos, aquela cumplicidade e carinho decifradas por olhares e gestos e toda essa esfera de descobertas dos primeiros meses.
     Após, relembrar o momento em que ouvi pela primeira vez um balbucio semelhante a mamãe, e que parecia ter tido todo o esforço recompensado...
     O dia que ele caminhou, enchendo nossos olhos de lágrimas e nossos corações de alegria, pois era como se ele tivesse ganhado o mundo com seus próprios pézinhos.
     Também o dia que ele aprendeu a dizer "eu te amo" e tivemos a certeza de que tudo era recíproco.
     São tantos momentos importantes que se fosse relatar todos não pararia mais... Pensando bem, hoje não quero uma máquina do tempo. Eu quero, nesse dia, reunir todos os sentimentos bons de todos aqueles que querem bem o nosso filhote para desejar que ele tenha cada vez mais saúde, que seja abençoado, que tenha paz, equilíbrio, sabedoria para levar a vida e nos presentear com a sua presença e luz por todos os dias que Deus permitir. Felizes somos nós que temos o privilégio de viver esses momentos e cabe a nós esperar por mais e viver cada minutinho com a energia e felicidade que ele nos passa.
     Feliz aniversário para o nosso companheiro, melhor amigo, razão do nosso riso diário! Pai e mãe estarão sempre contigo, te amamos!