Já faz um tempo que cheguei a conclusão de que sentir saudades é a maior sina de nossas vidas. Porém, até então, não tinha refletido mais sobre isso...
Eu, por exemplo, sinto saudades de morar no interior, no conforto de casa, morando com os pais. Aquele aconchego que sentimos ao retornar do lugar de onde viemos, onde crescemos. Sinto saudade de morar perto da escola e dividir o caminho com alguns amigos, caminhando sem tanta pressa. Saudades de estar sempre protegida, onde os monstros não saem debaixo da cama, e qualquer coisa, tinha a cama dos pais pra proteger dos pesadelos. Hoje, eu desempenho esse papel de proteção, é a roda da vida.
Sinto saudades da vida pra fora, do entardecer, de obrigar a mãe a interromper a brincadeira e levar pro banho, pois a noite já estava se aproximando. Fecho os olhos e sinto o cheiro do carreteiro com ovo pra janta, e é como se estivesse lá... Não tinha nada em especial, mas era no fogão a lenha, naquela cozinha, o sino batendo indicando para os peões que estava na mesa. De acordar cedo no outro dia com meu pai dizendo que o cavalo já está esperando para encilhar. Lá, tudo ainda é assim; eu que não posso mais estar todo dia perto.
Saudades do decisivo terceiro ano, vestibular, expectativas. De quando respirei fundo, saí de casa e voei com minhas próprias asas. Aprendi a cozinhar, andar de ônibus, aprendi ruas novas, caminhos diferentes. Caminhos. Que me distanciaram da minha casa, meus pais, minhas melhoras amigas, e me ensinaram que cada estrada é um mundo novo. Ganhei independência, ganhei amigos novos, ganhei maturidade. Sinto saudades dos anos que morei com meu irmão, que foi como meus pais nessa época de transição... Do quanto aprendi com ele e o quanto aproveitamos esse tempo que moramos juntos. E foi por aí, nessa época, que também ganhei um amor, um companheiro que desde a primeira vez que saímos juntos, nunca mais nos deixamos e queríamos estar cada vez mais perto.
Sinto saudades de quando éramos apenas dois jovens cujo único compromisso era a faculdade. Pouco tempo depois a vida nos guardava uma surpresa. Tenho saudades da gestação, da espera pelo que eu nem sabia se seria capaz de conduzir. Aquilo que falei antes sobre a troca de papéis, sobre ser fortaleza, proteção - eu tinha apenas 18 anos e aprendia a cuidar de mim. Sinto muita saudades, muita vontade de voltar no tempo no dia que o Santiago nasceu, para me encantar novamente com o rosto dele. Saudades dos momentos que passamos até chegar aqui. E tenho certeza que também sentirei saudades dessa nossa casa, da vida que levamos hoje.
Entretanto, a conclusão que cheguei hoje não é nenhum desses fatos que mencionei antes. Essas são saudades que carrego sempre comigo, meus pais, meus irmãos, meus amigos. O que me dei por conta é que semeamos a saudade a cada momento bom que vivemos. Sentir saudades não significa que as coisas não vão bem no presente, e sim, que o passado foi intenso a ponto de nos deixar lembranças indeléveis em nossa memória. Sentiremos saudades de nossos avós, de nossos pais, daqueles que nos rodeiam.. O nosso tempo é precioso, a vida corre e é impossível parar essa roda. Por isso, é nosso dever cultivar o presente, para que nossa vida seja cheia de saudades...
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