Que o desmame é um processo doloroso, todo mundo sabe. O que muitos não sabem são as múltiplas faces dessa dor.
Começa na hora de tomar a decisão - difícil. Difícil decidir, pôr fim a uma relação tao prazerosa, na qual nós dois acabamos nos tornando dependentes. Pesa os prós daqui, sente os contras dali... Ok. Coragem. Decisão tomada, agora é respirar fundo e empeçar a batalha.
Pula uma mamada. Duas. Um passo pra frente, dois para trás. Uma história, uma musica... até que surge a próxima dor: o peito, ingurgitado por não compreender a decisão tomada. O seio enche, mas lá no fundo do peito cala o mais oco vazio.
Põe compressa fria, vai passar.
Passam-se os dias, mas não passa a dor no seio. As novas rotinas vão se acomodando e com sorte temos um novo jeito de acalmar, de adormecer, de acalentar. Mas o leite esquecido segue no mesmo lugar, preso, como o sentimento de indecisão no nosso coração.
Assim vai até que acontece: o leite empedra. A dor chega com mais força e o jeito é entrar no chuveiro e deixar a água morna escorrer pelo peito. Lentamente o leite começa a sair... em seguida ele escorre, ao mesmo tempo em que as inevitáveis lágrimas. Ambos vão embora pelo ralo, deixando a certeza do fim desse ciclo, da deliciosa fase da amamentação. Aos poucos o peito vai ficando menos rígido e com os dias a dor vai aliviando - é o corpo, a natureza concluindo seu processo, compreendendo que aquele ser já não é tão pequeno assim, tão dependente assim, tão exclusivo assim.
A dor física logo passa. Mas a dor sentimental custa mais a desparecer... Ainda que a gente seja bem sucedida no desmame gentil, e que o processo tenha sido relativamente tranquilo, o fato dessa conexão especial ter findado, gera, inevitavelmente, uma pontinha de tristeza. Talvez porque é difícil aceitar o crescimento dos filhos. Talvez porque de certo modo você deixa de ser única para ele, e esse é um caminho unidirecional. Talvez porque você nunca mais vai repetir essa experiência na vida. Ou, talvez, seja simplesmente isso tudo junto.
Um dia essa dor multifacetada passa. E o que fica são só as boas e inesquecíveis lembranças.
Nenhum comentário:
Postar um comentário